Opinião Economia

Quanto custa insistir no projeto errado

Insistir no projeto errado consome capacidade, foco executivo, confiança e janela de oportunidade que poderiam estar em algo melhor.

Vinícius Coimbra
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O custo mais caro de um projeto ruim quase nunca é o que já foi gasto. É a capacidade que continua presa nele enquanto uma decisão mais valiosa espera na fila. Em dados, isso é ainda mais sensível porque times pequenos costumam sustentar um portfólio grande demais, com dependências técnicas e políticas que não aparecem inteiras no slide de status.

Essa distorção tem nome. Em economia comportamental, Arkes e Blumer descrevem o sunk cost effect como a tendência de continuar um esforço porque tempo, dinheiro ou energia já foram investidos. Em portfólio corporativo, Ronald Klingebiel mostrou na Harvard Business Review como processos formais de aprovação podem manter projetos ruins vivos por inércia. O problema, portanto, não é só financeiro. É de alocação.

O custo que a planilha não mostra

Imagine uma operação em que engenharia, analytics e negócio passam quatro meses tentando viabilizar um caso de uso que continua sem decisão-alvo clara. Nesse mesmo período, uma frente mais simples, ligada a pricing ou recuperação de margem, fica sem time. No papel, o custo do projeto problemático parece ser o orçamento já desembolsado. Na prática, o custo real inclui o que a empresa deixou de capturar enquanto insistia.

É essa camada invisível que transforma insistência em custo de oportunidade. A iniciativa ruim consome engenheiros, ocupa o calendário executivo, cria fadiga nas áreas parceiras e ainda atrasa o aprendizado sobre o que deveria ter sido priorizado desde o início.

Por que insistir parece racional

Quando um projeto já consumiu meses de trabalho, a pressão para continuar cresce. Há fornecedor envolvido, alinhamento político, justificativa pública, narrativas de esforço e uma sensação difusa de que parar agora seria admitir desperdício. O problema é que o gasto passado não melhora, por si só, a qualidade do próximo investimento.

O passado explica a situação. Ele não autoriza automaticamente o próximo ciclo. Essa é a passagem que costuma faltar quando a discussão fica emocional demais para parecer econômica.

Capacidade é o recurso mais escasso

Times de dados quase sempre operam com mais demanda do que capacidade. Isso significa que cada projeto que continua sem tese clara consome o recurso mais caro do sistema: atenção combinada de gente técnica, liderança e áreas usuárias.

A McKinsey mostrou que menos de 30% das transformações melhoram desempenho e sustentam resultado no tempo, e que transformações digitais têm índice ainda pior. A leitura útil aqui não é só "muitos projetos falham". É que capacidade mal alocada tem custo alto, especialmente quando o portfólio já está congestionado.

Os sinais de que a iniciativa precisa ser rediscutida

Alguns sinais merecem pausa imediata:

Nenhum desses sinais obriga cancelamento automático. Todos obrigam revisão séria.

O que entra no custo real

Quando a empresa calcula apenas horas de desenvolvimento e infraestrutura, ela perde o pedaço mais importante da conta. Também entram coordenação entre áreas, redefinição semântica, manutenção, suporte, treinamento, monitoramento, retrabalho e desgaste de confiança.

É por isso que Custos invisíveis de projetos de dados e Business case de dados são temas inseparáveis. O custo de oportunidade só fica claro quando a organização aprende a enxergar o custo total, não só a parte que passa pelo centro de custo do time técnico.

Quatro perguntas antes de continuar

Antes de aprovar mais um ciclo, vale responder com frieza:

  1. A decisão-alvo ainda importa?
  2. A hipótese ainda é plausível?
  3. O custo total continua proporcional ao valor esperado?
  4. Há adoção real ou sinal concreto de que ela pode acontecer?

Se duas respostas forem fracas, o projeto não deveria seguir do mesmo jeito. Pode ser caso de reduzir escopo, trocar responsável, reformular a iniciativa, pausar ou encerrar.

O valor econômico de parar cedo

Parar cedo não é derrota administrativa. É proteção de capacidade. Também é um mecanismo de aprendizagem: a empresa descobre se errou na hipótese, no timing, na definição da métrica, na qualidade do dado ou no poder real do patrocinador.

Quanto mais cedo esse aprendizado aparece, menor o custo de continuar ensinando o problema errado para o resto da organização. É essa lógica que sustenta o artigo ROI do não.

O papel do Data Translator

O Data Translator ajuda a tornar essa conversa menos pessoal e mais econômica. Ele pergunta que decisão ainda merece ser melhorada, que hipótese segue defensável, que custo está invisível e que evidência justificaria continuar.

Esse repertório conecta Governança de outcomes, Como provar ROI de dados e o módulo Economia de Dados.

Antes de aprovar mais um ciclo, complete esta frase:

Continuar este projeto ainda vale porque [decisão] segue relevante, [hipótese] segue plausível, [custo] continua proporcional e [evidência] indica chance real de impacto.

Se a frase não fecha, insistir provavelmente custa mais do que parar.

Referências que valem a pena

  1. The Psychology of Sunk Cost
  2. Research: How to Get Better at Killing Bad Projects
  3. The keys to a successful digital transformation
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